Por que Diabo Velho?

Por que “Aldeia”?

Aldeia é um conceito de territorialidade que conjuga espaço, desenvolvimento, comunidade e mercado de bens culturais. A conceituação é inspirada numa passagem de Maffesoli (2001,99) quando se refere à cidade para falar sobre o aspecto dupla vida: “O espaço original quer se trate de um país, uma cidade, uma aldeia, um bairro, uma casa, ou até, mais simplesmente, um território simbólico, tem sempre a figura de um refúgio fechado a partir do qual se pode criar o sonho da vida”. A ideia movente é articular o intercâmbio nacional de mostras, eventos, acontecimentos culturais realizados pelo Sesc em todo o Brasil. Construir linhas rizomáticas de difusão tanto de processos e resultados artísticos, quanto de estratégicas de gestão e interlocução com as comunidades. Aldeias são acontecimentos estéticos da cotidianidade. Arte e Cultura como vontade de vida. Propulsão políticas do desejo.”

(Extraído do site www.sescmatogrosso.com.br)

Logo, Aldeia é um conceito que pretende agregar as expressões da cultura e as manifestações artísticas em um mesmo território simbólico para a concentração de ideias, trocas de experiências, fomento e difusão dessas manifestações.

Por que “Diabo Velho”?

A ocupação do Estado de Goiás iniciou nas primeiras décadas do século XVIII, com as expedições de bandeirantes explorando as minas de ouro. Quando a bandeira do paulista Bartolomeu Bueno da Silva (pai), chegou a Goiás, estas terras já eram conhecidas. “No fim do século XVII, o território de Goiás era suficientemente conhecido, tanto em São Paulo como em Belém. Os caminhos de penetração se achavam descritos nos roteiros que corriam de mão em mão, e os rumores sobre suas riquezas auríferas não faziam senão avolumar-se, apesar do limitado êxito das Bandeiras neste aspecto”. (Palacin, 1994). Fazia parte desta bandeira o filho de Bartolomeu Bueno da Silva, com o mesmo nome do pai.

Várias expedições comandadas pelos bandeirantes estiveram em terras goianas, mas nem bandeirantes nem jesuítas vinham para se fixar em Goiás, diferentemente de Bartolomeu Bueno da Silva, pai, considerado por isso o descobridor de Goiás. Cego de um olho pode vir daí o apelido de “Anhanguera”, de origem e significado discutido. No entanto, reza o imaginário que o bandeirante ameaçou atear fogo ao rio se os índios não dessem o ouro que ele queria; para demonstrar seu poder, ateou fogo em uma bacia com aguardente. Em função dessa atitude, os índios o chamaram de Anhanguera, que significa “Espírito maligno” ou “Diabo Velho”. De origem tupi, decorre de anhanga, “ser maligno” e uera, “o velho, o que já foi”.

Com o tempo, a história, as lendas e os simbolismos gerados por esse controverso personagem, foram sendo esquecidos pelo povo goiano. De alguma forma, palavras como “Anhanguera” e “Rio Vermelho” começaram a ser utilizadas em diversos espaços, lojas, entidades… E as pessoas acabaram por se acostumar com elas e, consequentemente, tornando essas palavras comuns ao seu cotidiano.

Mas Bartolomeu Bueno é merecedor de homenagens? Será que o povo goiano se lembra que foi ele quem dizimou um número absurdo de índios que viviam na região? Em uma das versões contraditórias do “Diabo Velho”, ele teria matado tantos índios que, após jogar os corpos ao rio, eram tantos que acabaram tornando as águas vermelhas originando o tão homenageado Rio Vermelho.

Partindo do princípio de que, grosso modo, o que Bartolomeu fez foi suprimir a cultura indígena já presente na região, suprimir seus costumes, suas raízes e impor através da força bruta a cultura sanguinária e violenta que vinha sendo disseminada através dos desbravadores das bandeiras, ao nomear sua aldeia, a Regional do Sesc em Goiás, a entidade pretende não homenagear mas levantar questionamentos, rememorar a história, lançar olhar sobre as heranças culturais que marcaram nosso povo de tal forma que ainda procuramos por nossa identidade indígina-negro-branco.

O Diabo Velho pode ser ou não digno de homenagens. Isso é questionável.

Mas a importância desse ser tão polêmico e quase mítico na constituição de nossa identidade é absoluta!

“Só a Antropofagia nos une.

Socialmente.

Economicamente.

Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

(…)

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

(…)

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. (…)

Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. (…)

(…)

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

(…)

“Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”

“OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

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